Memórias de outros tempos
"Memórias de outros tempos" é uma exposição temporária de longa duração que, através de três pequenos núcleos expositivos, pretende levar o visitante a recuar alguns anos atrás e viver ou reviver o que foram as vivências de grande parte do Alentejo no que diz respeito ao trabalho do campo e à típica habitação Alentejana.
Esta exposição é ainda composta por um pequeno núcleo dedicado à marcenaria. Este núcleo resulta da última grande doação feita ao Museu por parte do Mestre Marceneiro Artur Azedo.
O Trabalho Agrícola
Os campos cultivados e os trabalhos agrícolas marcaram profundamente a História Local. Durante anos a população viveu quase exclusivamente da agricultura.
Neste concelho, profundamente rural, os recursos económicos assentavam de uma maneira geral na produção e comércio de cereais, azeite e cortiça e na criação de gado.
O árduo trabalho do campo estabelecia o ritmo da vida local, onde as jornas de trabalho tinham como companheiro o sol que ditava o ritmo da lida.
O ciclo do trabalho da terra, sementeiras, monda, ceifa, colheita e debulha ocupava as populações durante todo o ano, havendo mesmo a necessidade de contratar pessoas de outras localidades pois a mão de obra local não bastava para certo tipo de actividade como é o caso da ceifa.
Em Portugal o desenvolvimento da agricultora deu-se somente a partir do final da década de 40 do século XX. No entanto, até bastante tarde as alfaias agrícolas tradicionais foram utilizadas, sobretudo nas pequenas explorações familiares.
As alfaias agrícolas tradicionais eram geralmente feitas localmente e adaptadas a cada trabalhador. O caso das enxadas é disso exemplo, os seus cabos eram adaptados à altura da pessoa.
Nos últimos 30 anos, a agricultura perdeu peso na economia e na sociedade, mas foi sem sombra de dúvida, uma das actividades que mais marcou o povo Português durante gerações.
Este decréscimo ficou a dever-se por um lado ao aparecimento de máquinas agrícolas cada vez mais sofisticadas e por outro à importação de produtos do estrangeiro.
A Habitação Alentejana
O povoamento no Alentejo tem uma característica muito particular que se prende, desde logo, com os inícios da nacionalidade e o período da reconquista cristã.
A região do sul do país não era povoada, o que levou os nossos reis a doarem grandes domínios a nobres ou a grandes ordens religiosas, como foi o caso da região onde se situa hoje Avis, que por volta de 1211 foi doada por D. Afonso II aos Freires de Évora. Tendo esta Ordem, anos mais tarde, dado origem à extinta Ordem de São Bento de Avis.
As populações viviam nos aglomerados urbanos (vilas ou aldeias) ou dispersas nos montes.
No que se refere à habitação tipicamente Alentejana, ela é constituída apenas por um piso térreo. As casas nas zonas rurais de piso térreo têm poucas janelas e dimensões reduzidas. No entanto, as casas das aldeias devido a questões de espaço podem ter dois ou mais pisos. Nestas casas, devido à dimensão da fachada não existem janelas, apenas uma porta com um postigo.
As casas eram rebocadas e caiadas no interior e exterior, de branco ou com cores vivas.
A divisão principal da casa é a cozinha que funcionava ao mesmo tempo como sala de estar e de trabalho. Uma das principais características deste tipo de construção é a enorme chaminé de chão, onde as pessoas cozinhavam e se aqueciam. As cozinhas possuíam nichos, poiais e prateleiras, bem como mobília simples (cadeiras de madeira com assentos de palha entrançados, bancos, mesas, arca).
No que se refere aos montes tão característicos na região e dispersos pela paisagem, podem, segundo Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano “ser casas solarengas; às vezes com dois ou três andares, com terreiro e pátio murado, até casas térreas mais ou menos modestas e pequenas, ajustadas às necessidades das lavouras respectivas, ou apenas para habitação de ganadeiros, guardas ou pastores.”(1)
Podemos assim dizer, e de um modo geral, que uma das características principais da arquitectura tradicional no Alentejo é a chaminé de chão na cozinha.
(1) - OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO Fernando - Arquitectura Tradicional Portuguesa; Publicações Dom Quixote; Lisboa; 2000
O Marceneiro
Alterações sociais e económicas promoveram o desaparecimento de muitos marceneiros. De facto, actualmente, a maioria dos móveis são feitos em série e quando estes se estragam deitam-se fora e adquirem-se outros.
O marceneiro emprega grande número de ferramentas que se podem dividir em cinco grandes grupos que se prendem com a sua função: medir e marcar; cortar; perfilar e polir; perfurar e percutir e extrair. Possui ainda inúmeros acessórios e produtos para diversos fins.
No grupo das ferramentas de medir e marcar existem o metro, a régua, o compasso, o graminho e a suta. Nas ferramentas de corte, os serrotes, as serras, os formões, o guilherme e o corteché. A lima, a lixa, a grosa e o raspador pertencem à categoria de perfilar e polir. O berbequim manual, o arco de pua e a verruma integram o grupo das ferramentas de perfurar. O martelo e o alicate estão incluídos nas ferramentas de percussão e extracção.
Um bom marceneiro tem que conhecer todas estas ferramentas que estão ao seu alcance e possuir boas bases de desenho à vista e geométrico. Um trabalho de marcenaria começa por marcar, traçar e serrar a madeira.
Para além da tarefa de executar novas peças, o marceneiro também restaurava aquelas que se iam deteriorando com o uso e a passagem do tempo. |